Mancada do revisor
Na sua 15ª sessão no Supremo Tribunal Federal do julgamento do Mensalão,
o tempo promete fechar na réplica e tréplica dos ministros Joaquim
Barbosa e Ricardo Lewandowiski sobre a condenação e o perdão ao deputado
federal João Paulo Cunha.
Barbosa vai mostrar que Lewandowski cometeu pelo menos um erro no voto que leu na quinta-feira passada.
O ministro de São Bernaerdo do Campo atribuiu a um ministro do Tribunal
de Contas da União (TCU) uma conclusão que não é dele nem do tribunal,
mas de um personagem que foi alvo de uma auditoria do órgão, o
ex-diretor-geral da Câmara Sérgio Sampaio.
A falha
Na salvação a JP, Lewandowski pregou que o ministro do TCU relator da
apuração sobre o contrato de Valério com a Câmara afirmara que uma
apuração da Secretaria de Controle Interno da Câmara fora "maculada por
vícios que a nulificam (sic)".
O ministro até mencionou a página e o volume do processo do mensalão em que estaria a conclusão do TCU.
Probleminha é que a tal afirmação sobre "mácula", "vícios" e "inimizade"
não partiu do TCU, mas do próprio Sampaio, e Barbosa vai aproveitar a
falha para jogar aquele foguinho amigo no colega de STF.
Amigos para sempre...
A petralhada ficou PT da vida com a revista Época desta semana que
mostrou como é fortíssima a amizade entre o ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, e o
ministro do STF e morador do condomínio de alto luxo Swiss Park, naquela
cidade, Ricardo Lewandowiski.
A publicação das Organizações Globo veiculou que “os três – Marinho,
Lewandowski e o próprio Lula – são frequentadores do restaurante São
Judas Tadeu e amigos do dono, Laerte Demarchi, um são-bernardense da
gema”.
Ainda segundo a revista, “Laerte se orgulha de ter assistido, no
estabelecimento famoso pelo frango com polenta, ao nascimento do partido
político que há dez anos governa o Brasil”.
E mais: “Marinho, Lewandowski, Demarchi e Lula pertencem a um mesmo
círculo de amigos – e o relacionamento dos quatro vem se estreitando nos
últimos tempos”.
Aos amigos, um emprego quase vitalício
Época revelou que Lewandowski ingressou na vida pública pelas mãos dos irmãos Demarchi:
“Quando Walter Demarchi, irmão de Laerte, era vice-prefeito de São
Bernardo, entre 1983 e 1988, ele convidou o então advogado a ocupar a
Secretaria de Assuntos Jurídicos. O então prefeito, Aron Galante, mal
conhecia Lewandowski. Ele recorda: “Foi a família Demarchi que indicou o
secretário jurídico. Disseram: ‘Nós temos o Lewandowski’. Eu respondi:
‘Traz ele aqui’. Nem o conhecia direito”.
“A família Demarchi se orgulha de ter sugerido o nome de Lewandowski
quando surgiu uma vaga no Supremo. “O único favor que pedimos ao Lula,
que foi meu irmão Laerte quem pediu, foi para que ele colocasse o
Ricardo como ministro, porque não sei que ministro ia se aposentar (era
Carlos Velloso). O Lula falou: ‘Tudo bem’”, afirmou Walter Demarchi a
ÉPOCA”
Fonte: http://www.alertatotal.net/2012/08/catolicos-lancam-na-internet-campanha.html
--“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu" ........... Darcy Ribeiro
terça-feira, 28 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
Quer criar uma nacao de escravos? Nada de MATEMATICA.
A falência do ensino da matemática
Em meados de 2011, recebi um telefonema de uma mãe, desesperada, perguntando quanto eu cobraria para dar aulas particulares de matemática para seu filho.
Ela tinha ouvido a entrevista por mim dada ao Programa Adilson Ribeiro, na Rádio Itaperuna. Em tal entrevista, eu havia me oferecido para ensinar matemática básica, gratuitamente, a grupos de alunos de escolas públicas. Além disso, na entrevista, eu havia afirmado que não dava aulas particulares em razão de um inconciliável conflito de interesses: a aula particular é cara para o aluno e barata para o professor.
Dona Gisele, a mãe do menino, disse que resolveu me procurar pelo fato de eu ter afirmado que os pais nunca devem culpar os filhos antes de verificarem as razões que levaram a criança a detestar a matemática, pois, na maioria das vezes, a culpa não é da criança, e, sim, de algum professor, o atual, ou um ex-professor.
Então, ela explicou-me que estava à espera do resultado do eletro encefalograma que havia mandado fazer no filho para saber se o menino tinha algum problema neurológico. Falou-me que já havia levado o filho ao oftalmologista, e o mesmo constatou não haver problema de vista. Informou-me, ainda, que mandou fazer tais exames no filho porque a professora havia afirmado que o menino, de apenas oito anos, tinha alguma deficiência que o incapacitava para a matemática.
Resolvi ajudar, sensibilizado pela perturbação que as “deficiências matemáticas” estavam causando na vida da família (a mãe já estava à beira de um colapso nervoso, e o filho já não mais agüentava a pressão a que estava sendo submetido).
Ao final, o problema foi resolvido a contento, e, como esperado, o resultado do eletro encefalograma também não detectou nenhuma anomalia. O menino é sadio. Como em outros casos semelhantes, quem precisa de médico é a professora.
O caso acima relatado me remete ao objetivo deste artigo, que é falar das deficiências do ensino da matemática. Tratarei, aqui, de dois aspectos do complexo problema: a qualidade dos livros distribuídos pelo MEC e o nível de capacitação dos alunos de escolas públicas.
Qualidade dos livros do MEC
Falarei do livro didático adotado para o 3° ano da Escola Chequer Jorge, de Itaperuna-RJ. Tomei conhecimento dele por ser o livro utilizado pelo jovenzinho de oito anos, que foi julgado incapaz de seguir os ensinamentos.
Tomei um susto com o livro de – pasmem! – 264 páginas. Repleto de figuras, desenhos e gráficos, o livro distribuído pelo MEC contém palavras e expressões que atemorizam os alunos. A seguir, darei alguns exemplos.
Na página 5, o livro apresenta os “ícones utilizados” para indicar “trabalhos com temas transversais” como “formação cidadã” e “pluralidade cultural”.
Na página 7, o livro indica o que será visto na unidade referente à “localização e simetria”. Coisas como “trajetos em malhas quadriculadas”, “simétrica de uma figura”, “padrões” e “mosaicos”.
Na página 41, é pedido para encontrar o resultado de uma adição usando a “reta numérica”.
Nas páginas 80 e 81, nossos pequeninos fazem uma viagem ao mundo dos “pictogramas”.
As páginas 204 e 205 são dedicadas a um estudo da “árvore de possibilidades”. Francamente, temi que o livro fizesse uma iniciação à análise combinatória. Meu temor não foi confirmado; no entanto, na página 260, o autor não resiste, e propõe o seguinte problema para a garotada de oito anos: “Com 2 blusas e 3 saias, quantas são as possibilidades de combinação para a escolha de 1 blusa e de 1 saia?”.
Após farta utilização de termos não familiares aos iniciantes – “ábaco”, “algoritmo usual da divisão”, “tempo de gestação dos animais”, “estratégia”, “simetria”, “polígono”, “vértice”, “gráficos”, etc. – o autor se supera, e, das páginas 250 a 255, leva a galera à loucura, ao apresentar coisas como “planificação de um prisma de base pentagonal”, “planificação de uma pirâmide de base hexagonal” e “planificação de um cilindro”.
Feito esses breves comentários sobre o livro que o MEC está distribuindo para nossos garotos de 8 anos, passo ao outro aspecto da questão.
Nível de capacitação dos alunos de escolas públicas
Em meados de 2011, me ofereci para aplicar, gratuitamente, um cursinho de matemática básica aos alunos que estivessem cursando o 8° e 9° período em dois determinados colégios municipais (Ligiéro e Nossa Senhora das Graças) localizados em Itaperuna-RJ.
A proposta era estudar toda a álgebra (equação de primeiro grau, sistema de equações e equação de segundo grau) e as ferramentas necessárias à resolução de problemas da matéria (frações, números relativos, potências, raízes, etc.), atentando para uma verdade incontestável: a principal razão das dificuldades encontradas no aprendizado de matemática é o fato de – para se entender determinada parte da matéria – ser necessário o conhecimento anterior de assuntos a ela interligados.
Resumidamente, dois foram os princípios obedecidos no planejamento do curso. Primeiro: a única maneira de uma pessoa se capacitar em matemática é “entendendo” a matéria, o que significa que não existem “métodos milagrosos”. Segundo: para que se “entenda” matemática de maneira rápida e eficiente, o estudo tem que ser feito “a partir do zero”, selecionando o que, de fato, é importante.
Para concretizar a proposta, escrevi todo o material didático na ordem que achei mais conveniente ao completo entendimento da matéria; além de trocar a ordem normalmente usada nas grades escolares, tirei todo o “lixo” do caminho.
Como os pré-requisitos para participar do cursinho eram o domínio das quatro operações e a capacidade de ler e interpretar pequenos textos (para saber o que um problema dá, e o que ele pede), os candidatos tiveram que se submeter a uma prova por mim preparada e corrigida. Em consonância com seu objetivo, a prova de seleção constou de vinte pequenos problemas a serem resolvidos em vinte minutos
Trezentos jovens, na faixa de 13 a 15 anos de idade, participaram da prova. 14 alunos foram selecionados, por terem acertado as 20 questões propostas. Por outro lado, uma preocupante situação ficou exposta: 197 dos 300 alunos que competiram não conseguiram acertar mais que 14, das 20 questões da prova.
Tal fato demonstra que 2 em cada 3 alunos não têm a mínima condição de entender as aulas de matemática que estão sendo dadas nos citados colégios, por melhor que sejam seus atuais professores.
Incontestavelmente, a culpa não é dos alunos, nem dos atuais professores, mas sim do sistema, que facilitou, em anos anteriores, a aprovação de alunos despreparados.
Pior: com toda a certeza, tais despreparados alunos serão “empurrados” para frente até fazerem jus às vagas reservadas no nível superior pelo sistema de cotas. Tudo, sob as vistas complacentes de nossas autoridades da área de educação.
Conclusão
Por certo, o problema que foi comprovado com essa pesquisa prática realizada junto aos jovens de escola pública de Itaperuna-RJ se repete por todo o país, formando uma geração prejudicada.
Diante desse cenário desolador, válido torna-se concluir: é impossível resgatar esses alunos – que, hoje, circulam como autênticos zumbis dentro das salas de aula – sem a disponibilização de um curso básico de matemática que seja rápido e eficiente. Contudo, uma coisa deve ser ressaltada: em nenhum momento, o “entendimento”, aspecto indispensável ao domínio da Matemática, pode ser prejudicado pela busca da rapidez e da eficiência. E, devido ao fato de existir uma interligação entre diversas partes da matemática, tal curso deve capacitar seus participantes a partir dos conhecimentos mais elementares da matéria
terça-feira, 24 de julho de 2012
Os olhos de quem le...
Os militares e a Memória Nacional
Como todos os meninos da escola na minha época, eu não podia cantar o Hino Nacional ou prestar um juramento à bandeira sem sentir que estava participando de uma pantomima. A gente ria às escondidas, fazia piadas, compunha paródias escabrosas.
Os símbolos do patriotismo, para nós, eram o supra-sumo da babaquice, só igualado, de longe, pelos ritos da Igreja Católica, também abundantemente ridicularizados e parodiados entre a molecada, não raro com a cumplicidade dos pais. Os professores nos repreendiam em público, mas, em segredo, participavam da gozação geral.
Cresci, entrei no jornalismo e no Partido Comunista, freqüentei rodas de intelectuais.
Fui parar longe da atmosfera da minha infância, mas, nesse ponto, o ambiente não mudou em nada: o desprezo, a chacota dos símbolos nacionais eram idênticos entre a gente letrada e a turminha do bairro.
Na verdade, eram até piores, porque vinham reforçados pelo prestígio de atitudes cultas e esclarecidas. Graciliano Ramos, o grande Graciliano Ramos, glória do Partidão, não escrevera que o Hino era "uma estupidez"?
Mais tarde, quando conheci os EUA, levei um choque. Tudo aquilo que para nós era uma palhaçada hipócrita os americanos levavam infinitamente a sério.
Eles eram sinceramente patriotas, tinham um autêntico sentimento de pertinência, de uma raiz histórica que se prolongava nos frutos do presente, e viam os símbolos nacionais não como um convencionalismo oficial, mas como uma expressão materializada desse sentimento.
E não imaginem que isso tivesse algo a ver com riqueza e bem-estar social. Mesmo pobres e discriminados se sentiam profundamente americanos, orgulhosamente americanos, e, em vez de ter raiva da pátria porque ela os tratava mal, consideravam que os seus problemas eram causados apenas por maus políticos que traíam os ideais americanos.
Correspondi-me durante anos com uma moça negra de Birmingham, Alabama. Ali não era bem o lugar para uma moça negra se sentir muito à vontade, não é mesmo?
Mas se vocês vissem com que afeição, com que entusiasmo ela falava do seu país! E não só do seu país: também da sua igreja, da sua Bíblia, do seu Jesus. Em nenhum momento a lembrança do racismo parecia macular em nada a imagem que ela tinha da sua pátria.
A América não tinha culpa de nada. A América era grande, bela, generosa. A maldade de uns quantos não podia afetar isso em nada. Ouvi-la falar de matava de vergonha.
Se alguém no Brasil dissesse essas coisas, seria exposto imediatamente ao ridículo, expelido do ambiente como um idiota-mor ou condenado como reacionário um integralista, um fascista.
Só dois grupos, neste país, falavam do Brasil no tom afetuoso e confiante com que os americanos falavam da América.
O primeiro era os imigrantes: russos, húngaros, poloneses, judeus, alemães, romenos. Tinham escapado ao terror e à miséria de uma das grandes tiranias do século (alguns, das duas), e proclamavam, sem sombra de fingimento: "Este é um país abençoado!" Ouvindo-nos falar mal da nossa terra, protestavam: "Vocês são doidos.
Não sabem o que têm nas mãos". Eles tinham visto coisas que nós não imaginávamos, mediam a vida humana numa outra escala, para nós aparentemente inacessível. Falávamos de miséria, eles respondiam: "Vocês não sabem o que é miséria".Falávamos de ditadura, eles riam: "Vocês não sabem o que é ditadura".
No começo isso me ofendia. "Eles acham que sabem tudo", dizia com meus botões. Foi preciso que eu estudasse muito, vivesse muito, viajasse muito, para entender que tinha razão, mais razão do que então eu poderia imaginar.
A partir do momento em que entendi isso, tornei-me tão esquisito, para meus conterrâneos como um estoniano ou húngaro, com sua fala embrulhada e seu inexplicável entusiasmo pelo Brasil, eram então esquisitos para mim.
Digo, por exemplo, que um país onde um mendigo pode comer diariamente um franco assado por dois dólares é um país abençoado, e as pessoas querem me bater.
Não imaginam o que possa ter sido sonhar com um frango na Rússia, na Alemanha, na Polônia, e alimentar-se de frangos oníricos.
Elas acreditam que em Cuba os frangos dão em árvores e são propriedade pública. Aqueles velhos imigrantes tinham razão: o brasileiro está fora do mundo, tem uma medida errada da realidade.
O outro grupo onde encontrei um patriotismo autêntico foi aquele que, sem conhecê-lo, sem saber nada sobre ele exceto o que ouvia de seus inimigos, mais temi e abominei durante duas décadas: os militares.
Caí no meio deles por mero acaso, por ocasião de um serviço editorial que prestava para a Odebrecht que me pôs temporariamente de editor de texto de um volumoso tratado O Exército na História do Brasil.
A primeira coisa que me impressionou entre os militares foi sua preocupação sincera, quase obsessiva, com os destinos do Brasil.
Eles discutiam os problemas brasileiros como quem tivesse em mãos a responsabilidade pessoal de resolvê-los. Quem os ouvisse sem saber que eram militares teriam a impressão de estar diante de candidatos em plena campanha eleitoral, lutando por seus programas de governo e esperando subir nas pesquisas junto com a aprovação pública de suas propostas.
Quando me ocorreu que nenhum daqueles homens tinha outra expectativa ou possibilidade de ascensão social senão as promoções que automaticamente lhes viriam no quadro de carreira, no cume das quais nada mais os esperava senão a metade de um salário de jornalista médio percebi que seu interesse pelas questões nacionais era totalmente independente da busca de qualquer vantagem pessoal.
Eles simplesmente eram patriotas, tinham o amor ao território, ao passado histórico, à identidade cultural, ao patrimônio do país, e consideravam que era do seu dever lutar por essas coisas, mesmo seguros de que nada ganhariam com isso senão antipatias e gozações.
Do mesmo modo, viam os símbolos nacionais - o hino, a bandeira, as armas da República - como condensações materiais dos valores que defendiam e do sentido de vida que tinham escolhido. Eles eram, enfim, "americanos" na sua maneira de amar a pátria sem inibições.
Procurando explicar as razões desse fenômeno, o próprio texto no qual vinha trabalhando me forneceu uma pista.
O Brasil nascera como entendida histórica na Batalha dos Guararapes, expandira-se e consolidara sua unidade territorial ao sabor de campanhas militares e alcançara pela primeira vez, um sentimento de unidade autoconsciente por ocasião da Guerra do Paraguai, uma onda de entusiasmo patriótico hoje dificilmente imaginável.
Ora, que é o amor à pátria, quando autêntico e não convencional, senão a recordação de uma epopéia vivida em comum?
Na sociedade civil, a memória dos feitos históricos perdera-se, dissolvida sob o impacto de revoluções e golpes de Estado, das modernizações desaculturantes, das modas avassaladoras, da imigração, das revoluções psicológicas introduzidas pela mídia.
Só os militares, por força da continuidade imutável das suas instituições e do seu modo de existência, haviam conservado a memória viva da construção nacional.
O que para os outros eram datas e nomes em livros didáticos de uma chatice sem par, para eles era a sua própria história, a herança de lutas, sofrimentos e vitórias compartilhadas, o terreno de onde brotava o sentido de suas vidas.
O sentimento de "Brasil", que para os outros era uma excitação epidérmica somente renovada por ocasião do carnaval ou de jogos de futebol (e já houve até quem pretendesse construir sobre essa base lúdica um grotesco simulacro de identidade nacional), era para eles o alimento diário, a consciência permanentemente renovada dos elos entre passado, presente e futuro.
Só os militares eram patriotas porque só os militares tinham consciência da história da pátria como sua história pessoal.
Daí também outra diferença. A sociedade civil, desconjuntada e atomizada, é anormalmente vulnerável a mutações psicológicas que induzidas do Exterior ou forçadas por grupos de ambiciosos intelectuais ativistas apagam do dia para a noite a memória dos acontecimentos históricos e falseiam por completo a sua imagem do passado.
De uma geração para outra, os registros desaparecem, o rosto dos personagens é alterado, o sentido todo do conjunto se perde para ser substituído, do dia para a noite, pela fantasia inventada que se adapte melhor aos novos padrões de verossimilhança impostos pela repetição de slogans e frases-feitas.
Toda a diferença entre o que se lê hoje na mídia sobre o regime militar e os fatos revelados no site de Ternuma vem disso. Até o começo da década de 80, nenhum brasileiro, por mais esquerdista que fosse, ignorava que havia uma revolução comunista em curso, que essa revolução sempre tivera respaldo estratégico e financeiro de Cuba e da URSS, que ele havia atravessado maus bocados em 1964 e tentara se rearticular mediante as guerrilhas, sendo novamente derrotada.
Mesmo o mais hipócrita dos comunistas, discursando em favor da "democracia", sabia perfeitamente a nuance discretamente subentendida nessa palavra, isto é, sabia que não lutava por democracia nenhuma, mas pelo comunismo cubano e soviético, segundo as diretrizes da Conferência Tricontinental de Havana.
Passada uma geração tudo isso se apagou. A juventude, hoje, acredita piamente que não havia revolução comunista nenhuma, que o governo João Goulart era apenas um governo normal eleito constitucionalmente, que os terroristas da década de 70 eram patriotas brasileiros lutando pela liberdade e pela democracia.
No Brasil, a multidão não tem memória própria. Sua vida é muito descontínua, cortada por súbitas mutações modernizadoras, não compensadas por nenhum daqueles fatores de continuidade que preservava a identidade histórica do meio militar.
Não há cultura doméstica, tradições nacionais, símbolos de continuidade familiar. A memória coletiva está inteiramente a mercê de duas forças estranhas: a mídia e o sistema nacional de ensino.
Quem dominar esses dois canais mudará o passado, falseará o presente e colocará o povo no rumo de um futuro fictício. Por isso o site de Ternuma é algo mais que a reconstituição de detalhes omitidos pela mídia.
É uma contribuição preciosa à reconquista da verdadeira perspectiva histórica de conjunto, roubada da memória brasileira por manipuladores maquiavélicos, oportunistas levianos e tagarelas sem consciência.
Perguntam-me se essa contribuição vem dos militares? Bem, de quem mais poderia vir?
Olavo de Carvalho
http://www.alertatotal.net/2012/07/os-militares-e-memoria-nacional.html
quinta-feira, 5 de julho de 2012
CORINTHIANS
05/07/2012
-
03h03
Campeão invicto, o Corinthians se iguala ao Santos de 1963, embora Pelé
& cia tenham jogado apenas quatro jogos --uma vitória e um empate
com o Botafogo, sem Mané Garrincha, e duas vitórias sobre o Boca
Juniors.
Agora, só sete clubes ganharam sem derrota --e desde 1978 que a façanha não era atingida.
O Corinthians, como se sabe, disputou e não perdeu nenhum dos 14 jogos. E deixou pelo caminho o Vasco campeão de 1998, o Santos tri e o Boca hexa. Certamente este time corintiano não é o melhor dos campeões brasileiros na Libertadores, mas se tornou o maior deles.
Porque o Santos de Pelé, o Cruzeiro de 1976, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e Raí, o Palmeiras de Felipão e Alex, o São Paulo de Paulo Autuori e Rogério Ceni de 2005 e o Santos de Neymar no ano passado tinham times melhores, assim como o bicampeão Inter era do mesmo nível e por aí afora.
Verdade que o Grêmio, em 1983, também superou três campeões: Flamengo, Estudiantes e Peñarol. Que o Vasco, em 1998, passou por Grêmio, Cruzeiro e River Plate.
Que o Palmeiras, em 1999, derrotou Olimpia, Vasco e River Plate.
E que o Santos, no ano passado, eliminou Colo-Colo, Once Caldas e Peñarol.
Mas o Corinthians venceu campeões maiores, que somam dez títulos --e invicto o dobro de jogos dos maiores invictos.
Sim, o próprio Corinthians, com times superiores, não conseguiu ganhar no começo do século, o que apenas aumenta a façanha deste time que Tite conduziu com serenidade.
Oswaldo Brandão e Basílio, em 1977; Nelsinho Baptista e Neto, em 1990; Osvaldo de Oliveira e um timaço em 2000 têm agora companhia ilustre e cada um escolherá o seu herói.
Ralf que fez o gol do empate no último minuto na estreia e evitou uma crise.
Paulinho que fez no Vasco e roubou de Riquelme. Emerson e Danilo que despacharam o Santos.
Romarinho!
Cássio, Chicão e Leandro Cástan, todos que permitiram ao Corinthians sofrer tão poucos gols.
E a Fiel, é claro, que mais uma vez transbordou num Pacaembu que está se despedindo da vida do Timão, mas que entrou em sua história no IV Centenário de São Paulo, em 1954, sob a batuta de Cláudio, Luizinho e Baltazar para sair em grande estilo quase 60 anos depois.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/1115388-o-maior-dos-campeoes.shtml
O maior dos campeões
Agora, só sete clubes ganharam sem derrota --e desde 1978 que a façanha não era atingida.
O Corinthians, como se sabe, disputou e não perdeu nenhum dos 14 jogos. E deixou pelo caminho o Vasco campeão de 1998, o Santos tri e o Boca hexa. Certamente este time corintiano não é o melhor dos campeões brasileiros na Libertadores, mas se tornou o maior deles.
Porque o Santos de Pelé, o Cruzeiro de 1976, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e Raí, o Palmeiras de Felipão e Alex, o São Paulo de Paulo Autuori e Rogério Ceni de 2005 e o Santos de Neymar no ano passado tinham times melhores, assim como o bicampeão Inter era do mesmo nível e por aí afora.
Verdade que o Grêmio, em 1983, também superou três campeões: Flamengo, Estudiantes e Peñarol. Que o Vasco, em 1998, passou por Grêmio, Cruzeiro e River Plate.
Que o Palmeiras, em 1999, derrotou Olimpia, Vasco e River Plate.
E que o Santos, no ano passado, eliminou Colo-Colo, Once Caldas e Peñarol.
Mas o Corinthians venceu campeões maiores, que somam dez títulos --e invicto o dobro de jogos dos maiores invictos.
Sim, o próprio Corinthians, com times superiores, não conseguiu ganhar no começo do século, o que apenas aumenta a façanha deste time que Tite conduziu com serenidade.
Oswaldo Brandão e Basílio, em 1977; Nelsinho Baptista e Neto, em 1990; Osvaldo de Oliveira e um timaço em 2000 têm agora companhia ilustre e cada um escolherá o seu herói.
Ralf que fez o gol do empate no último minuto na estreia e evitou uma crise.
Paulinho que fez no Vasco e roubou de Riquelme. Emerson e Danilo que despacharam o Santos.
Romarinho!
Cássio, Chicão e Leandro Cástan, todos que permitiram ao Corinthians sofrer tão poucos gols.
E a Fiel, é claro, que mais uma vez transbordou num Pacaembu que está se despedindo da vida do Timão, mas que entrou em sua história no IV Centenário de São Paulo, em 1954, sob a batuta de Cláudio, Luizinho e Baltazar para sair em grande estilo quase 60 anos depois.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/1115388-o-maior-dos-campeoes.shtml
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Meditacao...
Em plena Ditadura Constitucional
No antigo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, sob a direção do seu então chefe Luiz Gushiken, um dos cenários prospectivos traçados partia da premissa de que Lula seria o presidente da República em 2022, ano de comemoração do bicentenário da independência do Brasil. Ora, isto só seria possível de acontecer nas seguintes hipóteses. Na primeira, Lula conseguiria obter, via plebiscitária, o direito de concorrer “ad eternum” à presidência, a exemplo do já conseguido por Hugo Chávez e outros, sendo reeleito continuamente. Na segunda, caso não conseguisse seu intento, elegeria um títere em 2010, o que foi feito, retornando ao poder em 2014, sendo reeleito em 2018 e permanecendo no poder até 2022.
Desta forma, o PT permaneceria no poder para sempre, pois, após oito anos de administração lulista, é evidente o quase completo domínio de todas as fontes geradoras de poder por ele. Se não, vejamos. Mais da metade dos componentes das mais altas cortes de Justiça do Brasil foi nomeada por Lula. O Legislativo é inteiramente submisso aos seus caprichos. Inexiste uma oposição digna deste qualificativo. Os sindicatos foram cooptados. Até as lideranças estudantis foram anuladas.
A mídia, com raras exceções, depende das verbas de publicidade da União e das estatais. Quem diverge e verbaliza sua crítica é silenciado. A exposição positiva de Lula é digna de um plano de Goebbels. Aparecia todos os dias em praticamente todos os principais veículos de comunicação, em especial na televisão, mais vista pelas classes D e E, segmentos mais importantes em uma eleição. Lula é o pai dos pobres e a mãe dos ricos, aliança imbatível.
Imagine o leitor mais doze anos de exercício na administração federal. Estaria consolidada, de maneira irreversível, uma ditadura constitucional brasileira, sem perspectiva de reversão. E o quadro de 2014 é assustador. Qualquer um dos principais candidatos em potencial até agora citados representa a continuação da mesma política de submissão aos interesses da banca internacional. As recentes ações de Lula foram claras. Ele quer voltar a ser o primeiro mandatário brasileiro. Dilma é apenas um instrumento para ele.
Caso, por absurdo, algum outro político seja eleito, em uma hipótese bastante improvável, não teria poder suficiente para mudar muita coisa na Economia do Brasil. Seria alvo de uma oposição implacável por parte dos petistas, dos chamados movimentos sociais e de outros segmentos hostis, que na prática inviabilizariam qualquer projeto diferente do adotado por Lula, em continuação ao realizado por FHC, no tocante aos aspectos econômico-financeiros.
A saída estaria no surgimento de uma nova candidatura, capaz de representar uma opção nacionalista no quadro existente. Porém, para ter chance de sucesso, deveria ser apresentada pelo maior partido político do Brasil, o PMDB, em virtude de sua capilaridade, do tempo no horário gratuito e da possibilidade de obtenção dos R$ 400 milhões necessários, no mínimo, para bancar uma candidatura viável à Presidência. Ocorre que este partido não pensa no poder como meio para consecução dos Objetivos Nacionais, mas como um fim em si mesmo, para usufruto das suas benesses.
Agora, mais do que nunca, devemos realçar a importância da defesa daquilo que ainda é nosso. De nossa cultura, de nossos valores, de nossos ideais, de nossas crenças, de nossos princípios, de nossas riquezas legadas por nossos maiores. Não podemos e não devemos envergonhar nossos antepassados. Vamos esquecer eventuais divergências, colocar para longe efêmeras vaidades e lutar para que o nosso país continue íntegro. Unirmo-nos enquanto é tempo, pois mais importante do que a arma utilizada pelo guerreiro é aquilo que ele sente no seu coração e o que pensa com sua mente.
A solução para nossos problemas passa pela recuperação da auto-estima nacional, pela volta dos sonhos legítimos de sermos uma grande potência, com nossos irmãos tendo direito a uma vida digna. Não queremos nada que não seja nosso. Exigimos apenas aquilo que já é nosso por gerações.
Nossos recursos naturais abundantes, a capacidade de trabalho do povo brasileiro, a habilidade de empreender característica de nossos empresários, a base econômica instalada, a tecnologia gerada por nossa criativa gente assustam as potências mundiais atuais. Por isto, eles não querem permitir nosso desenvolvimento. Tudo é utilizado pelo Sistema Financeiro Internacional, pela Trilateral, pelos detentores do poder econômico, para, inclusive, ridicularizar nossa fé. Militarmente, impedem que sequer tenhamos condições de defesa do nosso patrimônio. As Forças Armadas transformaram-se em Forças Desarmadas.
Economicamente, submetem a Nação às regras do Sistema Financeiro Internacional, por intermédio de seus agentes externos (FMI, Banco Mundial, BID, OMC, Diálogo Interamericano, cujo ideário foi operacionalizado no denominado Consenso de Washington) e internos (autoridades em postos de relevância formados no exterior com empregos garantidos quando saírem do governo). Tentam eliminar a capacidade de crescimento econômico e posterior desenvolvimento não só econômico como nacional, por meio da desnacionalização da nossa economia ou de sua eliminação (em especial, o segmento industrial), da subtração de nossas riquezas (através do contrabando ou da compra a preços vis) e, principalmente, empregando a privatização selvagem.
Será que isto não é o bastante para despertar a indignação do povo e motivar o início de uma campanha de âmbito nacional para evitar a perda de nosso patrimônio? Infelizmente, o país já perdeu muito de seu patrimônio e é chegada a hora de lutar para resgatar o que foi perdido. Vamos lutar, ombro a ombro, para preservar o futuro de nossos descendentes. Afinal, eles não nos perdoarão, caso não saibamos cumprir nosso dever.
http://www.alertatotal.net/2012/06/em-plena-ditadura-constitucional.html
domingo, 24 de junho de 2012
Vixe!!! o que a foto anterior...faz
Neocoronelismo urbano
Oposição de Erundina à aproximação Lula-Maluf reforça tese de que neste país o ‘novo’ nunca foi novo
23 de junho de 2012 | 16h 22
Carlos Guilherme Mota - O Estado de S. Paulo
Mal começado, o século 21 trouxe uma surpresa histórica:
Lula se aliou a Maluf. O arco se fecha, e queima-se um bom candidato à
condução da megacidade de São Paulo, capital financeira e cultural do
País. Era só o que faltava para a caracterização completa dessa
"república de coalizões" estapafúrdias, com seu futuro redesenhado nessa
semana a partir da maior metrópole do País. Hoje, que significa mesmo
ser republicano?
Arquivo AE
Maluf, então prefeito, vistoria obras na Av. Dr. Arnaldo, em 1969
Qual a lógica da política na terra bandeirante? Será possível fazer-se uma análise crítica das forças políticas que comandam a cidade desde, digamos, os tempos da ditadura e dos prefeitos biônicos até hoje? De que maneira os grupos econômico-financeiros, empreiteiras e respectivas forças políticas se revezaram na briga pelo poder? E o que tudo isso tem a ver com o modelo caótico de cidade que temos hoje? Não parece haver dúvidas sobre a importância da disputa municipal deste ano nas futuras eleições presidencial e estadual, sobretudo quando se recorda que o PT, como o antigo PTB e o atual PDT, sempre tiveram dificuldades eleitorais neste Estado e nesta anticidade. Desafio para todos, inclusive para a presidente Dilma, que vai melhorando em sua caminhada, sobretudo quando guarda alguma distância dessa sombra que não quer calar.
A galeria dos ex-prefeitos paulistanos ostenta de tudo, em termos humanos e de interesses do capital. Nossa urbe, marcada pela preocupação com o bem comum (o "ben comun", como se lê nas Atas da Câmara já no século 16) e os interesses da coletividade, teve fortes lideranças, desde o Morgado de Mateus (1765–1775) até o verdadeiro estadista que foi Prestes Maia, já no século 20, estudado pelos eruditos Benedicto Lima de Toledo e Candido Malta Campos, este em sua obra fundamental Rumos da Cidade. Ao revisitarmos a galeria dos ex-prefeitos, sem preocupação de arrolamento, nota-se que alguns são destacáveis (Faria Lima, Olavo Setúbal, Mário Covas, Luiza Erundina, Marta Suplicy, José Serra), outros "esquecíveis" (Jânio Quadros, Adhemar de Barros, Celso Pitta, Paulo Maluf). Mas convidemos o (e)leitor a avaliar o que cada um/uma representou ou ainda representa.
Na atualidade política, dizem os incautos ou muito espertos que direita e esquerda são definições que já não têm sentido. Carentes de leitura de livros, revistas e do mundo contemporâneo, lhes bastaria constatar as diferenças na França entre os projetos de um François Hollande e uma Marine Le Pen, ou no Brasil, entre os de Covas e Pitta, ou entre os de Maluf e (digamos) Lula.
O problema é que, de tempos em tempos, a capital paulista gera quasímodos políticos como Paulo Salim Maluf, um dos pilares da ditadura de 1964. O ex-governador, ex-candidato à Presidência da República e ex-prefeito de São Paulo (as ossadas de Perus não permitem esquecê-lo), nessa aproximação com o ex-presidente Lula com vistas à eleição municipal para escolha do novo prefeito da maior cidade da América Latina, obriga o cidadão minimamente ético e atento à História e a nossa vida política e social a se perguntar se não estamos vivendo mais uma ficção de mau gosto. Nesta agora cidade-pânico, penso no cidadão ativo que se recusa a ser alvo daquela frase ácida de Raymundo Faoro, quando dizia que "o Brasil é um país de otários", uma sentença dura do girondino radical, mas que se atualiza cada manhã ao tomarmos conhecimento do noticiário nacional, ou tentarmos entrar em um metrô (digamos, a Linha Vermelha, de Itaquera à Barra Funda), ou simplesmente atravessar a rua na faixa de pedestres. O problema é que o girondino gaúcho não logrou ensinar a radicalidade responsável ao seu amigo pernambucano, que deveria ser adotada como estratégia e referência em face dos "donos do poder". Ou seja, do patronato político brasileiro, incluídos os últimos lamentáveis ministros das Cidades, no ministério hoje nas mãos do PP de Maluf. Pobres cidades brasileiras…
Neste país de amnésicos, vale recordar o velho Marx, pois do PT, um partido de esquerda, poderíamos esperar tudo, menos a aliança Lula-Maluf. Marx dizia que, ao longo da história há fenômenos que podem se repetir: na primeira vez, ocorrem como tragédia; na segunda, como farsa. Historicamente, na prática, Paulo Maluf contradiz Marx, pois a primeira vez que ocupou posto público foi farsa, a segunda também, a terceira idem, e assim sucessivamente, até essa semana de sucesso… Mas Marx nunca foi bem lido por eles, ou talvez nem sequer lido, e muito menos pensado, sobretudo em suas páginas incômodas sobre os lumpesinatos – de onde provêm a massa dos eleitores de Maluf – que, despidos de ideologia ou filosofia, topam qualquer parada e constituem um freio para o avanço da História.
Como explicar o que aconteceu essa semana em São Paulo, senão pela confluência, para fins eleiçoeiros, de duas lideranças populistas para puxar as massas de seus respectivos eleitores? De uma parte, as gentes de Maluf, liderança que mobiliza moradores da periferia – muito menos do que se imagina, talvez Marta mobilizasse mais –, mas também segmentos da pequena burguesia, o curral decrescente e disperso de desavisados, "despossuídos" e politicamente deseducados. E, de outra parte, os eleitores de Lula e do PT, que, apesar das crescentes defecções, compõem o contingente daqueles que creem que seu carismático líder, historicamente importante, ainda representaria a possibilidade de superação, via reforma, do capitalismo selvagem e da redenção dos trabalhadores. Ou seja, da fração da classe operária que subiu ao paraíso, como espera subir a fração mais abaixo, que aguarda sua vez (e a inadimplência) na antessala das agências de automóveis.
Enfim, uma obra de antiarte política, o encontro Maluf-Lula, que nem a burguesia mais esclarecida e empenhada poderia imaginar, muito menos arquitetar um símile competidor em suas hostes. O resultado, convenhamos, é a massificação bruta de nosso capitalismo periférico, em que tudo vale nada. E que acelera o processo de deseducação cívica e política dos jovens, o desencanto dos maduros e a descrença dos democratas nos valores do socialismo reformista. Nesse processo, desceram pelo ralo o contrato social, as lutas de classes ("apagadas" justamente no período dos governos Lula), da cidadania pura e dura, das visões progressistas de mundo e de política. Enfim, dos valores humanistas. Recorde-se que Chico de Oliveira, um dos ex-fundadores do PT, já concluíra em 2006 que "o papel transformador do PT se esgotou" (Folha de S. Paulo, 24-7-2006, p. A-12). Naquele mesmo ano, o conservador liberal Claudio Lembo sentenciava: "Lula não tem tendência a ditador. É um operário do chão de fábrica. Conhece a vida de verdade. É um pequeno burguês, apenas isso" (Folha de S. Paulo, 31-12-2006). Após o levante do PCC em 15 de maio daquele ano, em que a sociedade civil paulistana se acoelhou, a "paz" voltava a reinar na capital do capital no Brasil…
A recusa da ex-prefeita Luiza Erundina em participar dessa aproximação com Maluf vem reforçar a tese de que, neste país velho e periférico, o "novo" não é novo, e nunca foi. Rapidamente, o supostamente novo ficou velho, correndo de costas em direção ao passado, como se vê na foto histórica, com o candidato Fernando Haddad sem graça entre dois Poderosos Chefões, foto antes inimaginável. A combativa ex-prefeita Erundina, com sua recusa em participar do jogo, demonstra que o pragmatismo rasteiro não pode passar por cima de valores éticos, na política como na vida. Convidado em seguida para o posto, Pedro Dallari optou por trilhar o mesmo caminho da ex-prefeita.
O fato é que a socialista paraibano-paulistana criou um forte lema para a nova sociedade civil brasileira: "Não aceito". E pôs em alerta seu próprio partido, que vem crescendo e conquistando papel importante no cenário nacional. Que ele só terá a ganhar com tal recusa, o tempo dirá. As lideranças burguesas nacionais e as dos trabalhadores, sobretudo aquelas pessoas cidadãs preocupadas com o ethos, a transparência e o mores positivo em política e na formação de um Brasil democrático, republicano e moderno, têm agora uma possibilidade de interlocução com gente de respeito. Quanto ao PT, terá que rever o lugar da ex-prefeita Marta Suplicy no quadro local e nacional; e o PSB de Eduardo Campos, de reavaliar o valor da ex-prefeita Luiza Erundina. Do mesmo modo, os outros partidos, sobretudo o PMDB, que não podem continuar a ter esse papel de vala comum dos descorados camaleões.
Na metrópole paulistana, testemunha-se nos dias atuais o fim da História. Mais precisamente, de uma certa e bela História, que alimentou as expectativas e siderou corações e mentes (lembram-se dessa expressão?) de três ou quatro gerações. Não se trata, está claro, do fim da História de Francis Fukuyama, ideólogo de sucesso e garoto-propaganda de um capitalismo predatório "avançado" e desistoricizante. Ou seja, daquela forma de organização econômico-social que só poderia dar no que deu, mas que gerou a reação social e político-ideológica positiva que resultou na eleição de Barack Obama – uma liderança bem formada política, cultural e ideologicamente. No Brasil, o momento é de desilusão das gerações, mas como a História continua, há que se buscar sinais de novos tempos, de uma nova era.
Como analisar tantas expectativas hoje frustradas? Neste país de tradição colonial, talvez a ascensão de Lula e o crescimento do lulismo possam ser entendidos por conta do velho gosto aristocrático pelo popular, cultivado até por frações da alta burguesia e de classes médias ascendentes, um "apreço" genérico por operários, sobretudo se qualificados e bem pagos. Operários que não tivessem seus macacões sujos de graxa, que fossem conversáveis (e conversíveis) como Lech Walesa, o polonês do Solidariedade. Tal "apreço’ lembra os abraços que o grande abolicionista e aristocrático Joaquim Nabuco dava nos militantes negros, eventualmente convidados a subir em seu palanque, mantendo, porém, ligeira distância.
"Tudo que é sólido se desmancha no ar", sabemos hoje. E os carismas e populismos, como o de Jânio Quadros, também se desfizeram com o tempo, por inconsistência. Hoje, ouvem-se os aplausos de plateias que, deseducadas e mal formadas, eventualmente também são atraídas pela musicalidade da "canção nova" e pela singeleza ideológico-teológica de padres-cantores e pregadores espertos. Amanhã, quem sabe isso mude.
Nesta terra de carismas fáceis e "miséria farta" (como diria Anísio Teixeira), em que a modernidade vem sendo adiada com método, "conciliação" e rigor, talvez estejam sendo geradas, em algum canto, novas visões de mundo, lideranças e mensagens menos simplistas e grosseiras sobre o que vem a ser política, sociedade, cultura. Pois a História continua…
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,neocoronelismo-urbano,890582,0.htm
terça-feira, 19 de junho de 2012
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