A condenação do condenado
25/06/2017 02h55
A liberdade de expressão é um dos valores supremos da democracia e uma das bases da prática jornalística. O pluralismo de ideias, posições e opiniões está na essência do bom jornalismo. Limitações à liberdade de expressão e ao pluralismo prejudicariam de imediato os leitores, certo? Nem sempre e nem todos pensam assim.
Criada há mais de 40 anos, a seção de artigos Tendências/Debates, publicada na página 3, é uma das vitrines do projeto editorial da Folha. É objeto de comentários e críticas frequentes dos leitores.
Tem como base um dos 12 princípios editoriais da Folha, recém-divulgado, que prega cultivar a pluralidade e registrar com visibilidade pontos de vista diversos em questão controvertida ou inconclusa.
No início deste mês de junho, a Folha publicou o artigo "As ruas e as urnas", de autoria de José Dirceu, ex-deputado (PT-SP) e ex-ministro do governo Lula. Dirceu obteve perdão de sua pena no mensalão, mas foi condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha em razão da Lava Jato. Em maio, o Supremo Tribunal Federal concedeu habeas corpus, após dois anos de cadeia.
No texto, Dirceu chama o governo Temer de golpista e usurpador, prega uma revolução política, econômica e social e pede eleições diretas já. Diz que não há espaço para conciliação e que "é necessário, para o bem-estar social do país, dar fim à armadilha de uma falsa harmonia nacional e um ludibrioso salvacionismo contra a corrupção". Não se refere à sua própria condenação nem às várias acusações de corrupção a que responde.
O artigo provocou a revolta de leitores: "Por mais que admire a liberdade de expressão da Folha, acho um desserviço publicar artigo de um cidadão como Zé Dirceu, envolvido em crimes na Lava Jato e condenado a 32 anos de reclusão"; "Meu sentimento é de revolta. Abrir espaço para José Dirceu é afrontar a inteligência das pessoas"; "Surreal e revoltante abrir a Folha e se deparar com artigo de um condenado, chefe de quadrilha, tecendo comentários sobre a "coalização golpista".
Reações desse tipo ocorrem com alguma frequência. Leitores contestaram artigos recentes do ex-deputado Eduardo Cunha, também condenado, e do presidente Michel Temer, acusado na Lava Jato.
Mas o grau de ferocidade contra o artigo de Dirceu parece só encontrar paralelo quando, em janeiro de 2000, a Folha publicou artigo de Fernando Collor de Mello. O ex-presidente ficara por oito anos afastado da política por ter tido seus direitos políticos cassados e, naquele momento, apresentava-se como pré-candidato à Prefeitura de São Paulo.
Na ocasião, a Folha justificou a publicação relembrando seu "compromisso inarredável com o pluralismo". No caso de Dirceu, o jornal não publicou explicações, apesar da cobrança de leitores. Como representante deles, questionei a Secretaria de Redação. A resposta manteve o espírito da que foi dada há 17 anos: "A publicação insere-se no compromisso do jornal com o contraditório, o pluralismo e a liberdade de expressão", afirmou Vinícius Mota, secretário de Redação.
Como provocação ou ironia, leitores perguntaram se o jornal daria espaço a condenados como Marcola (líder do PCC), Fernandinho Beira-Mar (traficante), Suzane von Richthofen (assassinato dos pais).
Mota respondeu: "Seria uma boa discussão, a ser feita caso a caso, mas a tendência seria a de publicar, desde que não houvesse incitação ao crime ou ofensas à honra de terceiros". Minha posição é a mesma.
Discordo de quem não reconhece o direito de um condenado pela Justiça a se expressar. O crime cometido, pelo qual foi punido, não inclui a pena de silêncio. A reiterada defesa do pluralismo está na base do Projeto Folha e do sucesso do jornal. Pode provocar queixas de leitores, mas assegura diversidade jornalística, política e cultural.
Ressalvo, no entanto, que a pluralidade não desobriga o jornal do seu papel de editor, essencial na era da multi-informação. Um artigo eivado de erros, distorções, propagandas e proselitismo deve receber contrapontos críticos imediatos. Se não o fizer, o jornal abrirá mão de seu papel de curador jornalístico.
Cabe repetir frase de uma amiga de Voltaire, às vezes atribuída erroneamente ao escritor francês do século 18: "Detesto o que escreve, mas daria minha vida para tornar possível que você continuasse a escrever".
paula cesarino costa
ombudsman
Está na Folha desde 1987. Foi Secretária de Redação e editora de Política, Negócios e Especiais. Chefiou a Sucursal do Rio até janeiro de 2016. Escreve aos domingos
--“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu" ........... Darcy Ribeiro
domingo, 25 de junho de 2017
domingo, 7 de maio de 2017
segunda-feira, 10 de abril de 2017
sexta-feira, 24 de março de 2017
A AMANTE
Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu uma estranha, recém-chegada à nossa pequena cidade.
Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com esta encantadora personagem e, em seguida, convidou-a a viver com nossa família.
A estranha aceitou e, desde então, tem estado conosco.
Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre seu lugar em minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.
Meus pais eram instrutores complementares... minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau e meu pai me ensinou a obedecer.
Mas a estranha era nossa narradora.
Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias.
Ela sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência. Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!
Levou minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-me rir, e me fazia chorar.
A estranha nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava escutando o que tinha que dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranqüilidade. (agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez para que a estranha fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentia obrigada a honrá-las.
As blasfêmias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa... nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.
Entretanto, nossa visitante de longo prazo usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool. Mas a estranha nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos.
Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência pela estranha.
Repetidas vezes a criticaram, mas ela nunca fez caso aos valores de meus pais, mesmo assim, permaneceu em nosso lar.
Passaram-se mais de 50 anos desde que a estranha veio para nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era no princípio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda a encontraria sentada em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome? Ah. seu nome...
Chamamos de TELEVISÃO!
É isso mesmo; a intrusa se chama TELEVISÃO!
Agora ela tem um marido que se chama Computador, um filho que se chama Celular e um neto de nome Tablet.
A estranha agora tem uma família. E a nossa será que ainda existe!?
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Soft Revolucionario...
Confira as revolucionárias vantagens do L.I.V.R.O. – Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas
A matéria abaixo é um texto que circulou na Internet no final de fevereiro de 1998 e foi publicado na Revista do Clube Militar de setembro de 1998.
____________________
O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada e nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo! Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são mantidas unidas por sistema chamado lombada, que as mantêm em sua seqüência correta. A TPA – Tecnologia de Papel Opaco – permite que os fabricantes as duas faces de cada folha de papel, duplicando a quantidade de informações e cortando pela metade os seus custos.
Especialistas dividem-se quanto aos novos projetos para aumentar a densidade de informações de suas folhas. É que, para se fazer L.I.V.R.O.S. com mais informações, basta usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de carregar, atraindo críticas dos adeptos dos computadores portáteis.
Cada página do L.I.V.R.O. é escaneada opticalmente, e as informações são registradas diretamente em seu cérebro. Um simples movimento dos dedos leva à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser retomado a qualquer hora, bastando abri-lo. Ele nunca “dá pau” e nem precisa ser reiniciado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. O comando “browse” permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder quando você quiser. Muitos vêm com um índice, que indica a localização exata de qualquer informação selecionada.
O marca-páginas, um acessório opcional permite que você abra o L.I.V.R.O. no local exato em que o deixou na última sessão - mesmo que ele esteja fechado. O design dos marcadores de página é universal, permitindo que funcionem em qualquer tipo de L.I.V.R.O., não importando a marca. Além disso, um mesmo L.I.V.R.O. pode receber vários marcadores de páginas, caso seu usuário queira selecionar vários trechos ao mesmo tempo.
O número de marcadores é limitado apenas pelo número de páginas. Você também pode fazer anotações ao lado de trechos do L.I.V.R.O. cm outro instrumento de programação especial, o L.Á.P.I.S. – Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo aclamado como a onda de entretenimento do futuro.
Milhares de criadores já aderiram à nova plataforma e espera-se para breve uma inundação de novos títulos.
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.
A matéria abaixo é um texto que circulou na Internet no final de fevereiro de 1998 e foi publicado na Revista do Clube Militar de setembro de 1998.
____________________
O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada e nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo! Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são mantidas unidas por sistema chamado lombada, que as mantêm em sua seqüência correta. A TPA – Tecnologia de Papel Opaco – permite que os fabricantes as duas faces de cada folha de papel, duplicando a quantidade de informações e cortando pela metade os seus custos.
Especialistas dividem-se quanto aos novos projetos para aumentar a densidade de informações de suas folhas. É que, para se fazer L.I.V.R.O.S. com mais informações, basta usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de carregar, atraindo críticas dos adeptos dos computadores portáteis.
Cada página do L.I.V.R.O. é escaneada opticalmente, e as informações são registradas diretamente em seu cérebro. Um simples movimento dos dedos leva à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser retomado a qualquer hora, bastando abri-lo. Ele nunca “dá pau” e nem precisa ser reiniciado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. O comando “browse” permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder quando você quiser. Muitos vêm com um índice, que indica a localização exata de qualquer informação selecionada.
O marca-páginas, um acessório opcional permite que você abra o L.I.V.R.O. no local exato em que o deixou na última sessão - mesmo que ele esteja fechado. O design dos marcadores de página é universal, permitindo que funcionem em qualquer tipo de L.I.V.R.O., não importando a marca. Além disso, um mesmo L.I.V.R.O. pode receber vários marcadores de páginas, caso seu usuário queira selecionar vários trechos ao mesmo tempo.
O número de marcadores é limitado apenas pelo número de páginas. Você também pode fazer anotações ao lado de trechos do L.I.V.R.O. cm outro instrumento de programação especial, o L.Á.P.I.S. – Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo aclamado como a onda de entretenimento do futuro.
Milhares de criadores já aderiram à nova plataforma e espera-se para breve uma inundação de novos títulos.
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.
sábado, 14 de janeiro de 2017
Gostaria de ter escrito...
Desconheço o autor deste texto:
Eu nunca trocaria os meus amigos surpreendentes, a minha vida maravilhosa, por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa.
Enquanto fui envelhecendo tornei-me mais amável para mim e menos crítico de mim mesmo. Tornei-me o meu próprio amigo. Eu não me censuro por comer um cozido à portuguesa ou alguns biscoitos extras, ou por não fazer a minha cama, ou para a compra de algo supérfluo que não precisava.
Eu tenho direito de ser desarrumado, extravagante e livre.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.
Quem vai me censurar se eu resolver ficar lendo ou jogando no computador até as 4 horas da manhã e depois dormir até o meio-dia?
Eu dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 e 70, e se eu, ao mesmo tempo, desejar chorar por um amor perdido. Eu vou.
Vou andar na praia com um calção excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros, no Jet-sky. Eles também vão envelhecer...
Eu sei que às vezes esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes. Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril, e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.
Eu sou abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre, em sulcos profundos, no meu rosto. Muitos nunca riram e muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.
Conforme Você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado. Eu gosto de ser idoso.
A idade me libertou. Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estiver aqui, não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido e não foi, ou me preocupar com o que será. E vou comer sobremesa todos os dias.
Eu nunca trocaria os meus amigos surpreendentes, a minha vida maravilhosa, por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa.
Enquanto fui envelhecendo tornei-me mais amável para mim e menos crítico de mim mesmo. Tornei-me o meu próprio amigo. Eu não me censuro por comer um cozido à portuguesa ou alguns biscoitos extras, ou por não fazer a minha cama, ou para a compra de algo supérfluo que não precisava.
Eu tenho direito de ser desarrumado, extravagante e livre.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.
Quem vai me censurar se eu resolver ficar lendo ou jogando no computador até as 4 horas da manhã e depois dormir até o meio-dia?
Eu dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 e 70, e se eu, ao mesmo tempo, desejar chorar por um amor perdido. Eu vou.
Vou andar na praia com um calção excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros, no Jet-sky. Eles também vão envelhecer...
Eu sei que às vezes esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes. Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril, e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.
Eu sou abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre, em sulcos profundos, no meu rosto. Muitos nunca riram e muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.
Conforme Você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado. Eu gosto de ser idoso.
A idade me libertou. Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estiver aqui, não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido e não foi, ou me preocupar com o que será. E vou comer sobremesa todos os dias.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Enquanto o Brasil...chorava...
Enquanto o Brasil chorava
No Brasil os bandidos é que determinamcomo e o que pode ser feito contra eles
Fernando Gabeira,O Estado de S.Paulo02 Dezembro 2016
04h00Na madrugada, como costumam sempre fazer, os deputados votaram um texto destinado a golpear a Lava Jato e intimidar os procuradores e juízes. Dessa vez uma madrugada de luto pela queda do avião da Chapecoense, desastre que impactou o mundo.Temer prometeu vetar a anistia para o caixa 2 e outros crimes. Mas não mencionou o tema da represália à Justiça, uma das grandes aspirações de Renan Calheiros.O Brasil está diante de uma afronta espetacular: deputados investigados por corrupção determinam os limites dos próprios investigadores. Denunciar sua manobra não significa conciliar com abuso de autoridade, mas apenas enfatizar que legislaram em causa própria. No Brasil são os bandidos que determinam como e o que pode ser feito contra eles.O que existe mesmo, como ação central, é uma tentativa de neutralizar a Operação Lava Jato, sobretudo às vésperas da divulgação dos depoimentos da Odebrecht. O caminho foi interferir nas “10 Medidas Contra a Corrupção”. Interferir na proposta, na verdade, é um atributo do Congresso. Assim como não deve simplesmente carimbar medidas do governo, o Congresso não pode apenas carimbar medidas que se originam na sociedade.Não há nenhum problema em cortar exageros, em adequar ao texto constitucional, etc. A crise começa quando decidem confrontar a Lava Jato e outras investigações. Em primeiro lugar, com manobras sobre uma anistia impossível; em segundo lugar, aprovando uma lei de controle de autoridade que não pertencia à proposta original.Aliás, esse tema pertence a Renan Calheiros, com 12 investigações no Supremo Tribunal Federal. A Câmara dos Deputados antecipou-se a ele porque, com o êxito da Lava Jato, a contraofensiva parlamentar tornou-se a principal tarefa para bloquear as mudanças.Não dá. Assim como não deu para o governo transformar-se num grupinho de amigos do Geddel e pressionar para que o prédio La Vue fosse construído com 30 andares.Renan Calheiros segue sendo a maior ameaça. É curioso como um homem investigado 12 vezes coloca como sua tarefa principal controlar a Justiça. Com a votação da Câmara ele recebeu um alento. Renan e os deputados caminham para impedir que o Brasil se proteja dos assaltantes que o levaram à ruína.Renan tem influência. Há os que pensam, como ele, que é preciso torpedear a Lava Jato e há os que não ousavam combatê-lo, mas agora começam a perceber que foi longe demais. E o derrotaram no plenário do Senado, impedindo a urgência na lei da intimidação.Renan desenvolve o mesmo estilo de Eduardo Cunha, o cinismo, e usa o cargo para se proteger da polícia. Enfim, Renan delira, como Cunha delirava. A melhor saída é eles que se encontrem em Curitiba. Na ânsia de sobreviver, não hesitam em agravar a situação do País, já em crise profunda.A votação escondida num momento de luto, tudo isso é muito esclarecedor sobre a gravidade do desafio que lançaram. O sonho dourado dos políticos corruptos ainda em liberdade não é apenas deter as investigações. Eles querem reproduzir o momento anterior, em que assaltavam os cofres das estatais, vendiam artigos, emendas, frases, às vezes até um adjetivo.Romero Jucá é um craque nessa arte. Ele conseguiu passar uma lei que permite a repatriação do dinheiro de parentes de políticos. E não se expôs. Jogou apenas com a incompetência da oposição. Os membros da apodrecida cúpula do PMDB precisam ser julgados. Enquanto estiverem no poder, estarão tramando uma volta ao passado, porque é esse o território em que enriqueceram. Eles sabem que nada é tão fácil como antes, caso contrário Sérgio Cabral estaria em Paris aquecendo o bumbum em privadas polonesas.O problema no Brasil é julgar para gente com foro especial. O Supremo é um órgão atravancado por milhares de processos.Uma razão a mais para julgar os políticos investigados com urgência é que estão legislando em causa própria. Depois de tantas investigações, tanta gente na rua, é incrível que o Brasil continue sendo dirigido pelo mesmo grupo que o assaltou.É inegável que houve avanços, muito dinheiro foi restituído. Dirigentes do PT estão na cadeia, assim como alguns do principais empreiteiros do País. Entretanto, quem conseguiu escapar até agora organiza a resistência, prepara-se para o combate e só descansará quando puder de novo roubar em paz. Esta semana me lembrei do Glauber Rocha. Num de seus diálogos mais geniais, um personagem dizia: “Já não sei mais quem é o adversário”. Se a sociedade e a Justiça tiverem dúvidas sobre quem é, podem pagar caro por essa hesitação.O movimento inspirado por Calheiros e iniciado com êxito na Câmara é, no fundo, uma provocação irresponsável. O Congresso, recentemente, já foi invadido por gente indignada com a corrupção. Toda a luta pelo impeachment foi conduzida de uma forma pacífica. Todavia se torna mais difícil evitar a radicalização, uma vez que deputados e senadores já mal podiam andar pelas ruas antes mesmo de golpearem a Lava Jato.Será preciso muita habilidade e paciência para julgá-los e prendê-los. Se isso não for feito logo, o Brasil merecerá o nome que Ivan Lessa lhe dava nos seus textos bem-humorados: Bananão. Não nos deixam outro caminho senão lutar com todas as forças, como se tivéssemos sido invadidos por alienígenas de terno e gravata.Depois de nove anos, o primeiro inquérito em que Renan Calheiros é acusado finalmente entrou na pauta do Supremo para ser julgado. O silêncio dos ministros ao longo de todos esses anos contribuiu para que ele se sentisse impune. Se escolheram esta semana para absolvê-lo, então aí terão, ainda que involuntariamente, se tornado numa força auxiliar do crime político. Se condenado na primeira ação, Renan começará a arrumar as malas para Curitiba. Lá nasceram os demais inquéritos e lá já estão outros que deliram com riqueza e poder. Como Eduardo Cunha.
No Brasil os bandidos é que determinamcomo e o que pode ser feito contra eles
Fernando Gabeira,O Estado de S.Paulo02 Dezembro 2016
04h00Na madrugada, como costumam sempre fazer, os deputados votaram um texto destinado a golpear a Lava Jato e intimidar os procuradores e juízes. Dessa vez uma madrugada de luto pela queda do avião da Chapecoense, desastre que impactou o mundo.Temer prometeu vetar a anistia para o caixa 2 e outros crimes. Mas não mencionou o tema da represália à Justiça, uma das grandes aspirações de Renan Calheiros.O Brasil está diante de uma afronta espetacular: deputados investigados por corrupção determinam os limites dos próprios investigadores. Denunciar sua manobra não significa conciliar com abuso de autoridade, mas apenas enfatizar que legislaram em causa própria. No Brasil são os bandidos que determinam como e o que pode ser feito contra eles.O que existe mesmo, como ação central, é uma tentativa de neutralizar a Operação Lava Jato, sobretudo às vésperas da divulgação dos depoimentos da Odebrecht. O caminho foi interferir nas “10 Medidas Contra a Corrupção”. Interferir na proposta, na verdade, é um atributo do Congresso. Assim como não deve simplesmente carimbar medidas do governo, o Congresso não pode apenas carimbar medidas que se originam na sociedade.Não há nenhum problema em cortar exageros, em adequar ao texto constitucional, etc. A crise começa quando decidem confrontar a Lava Jato e outras investigações. Em primeiro lugar, com manobras sobre uma anistia impossível; em segundo lugar, aprovando uma lei de controle de autoridade que não pertencia à proposta original.Aliás, esse tema pertence a Renan Calheiros, com 12 investigações no Supremo Tribunal Federal. A Câmara dos Deputados antecipou-se a ele porque, com o êxito da Lava Jato, a contraofensiva parlamentar tornou-se a principal tarefa para bloquear as mudanças.Não dá. Assim como não deu para o governo transformar-se num grupinho de amigos do Geddel e pressionar para que o prédio La Vue fosse construído com 30 andares.Renan Calheiros segue sendo a maior ameaça. É curioso como um homem investigado 12 vezes coloca como sua tarefa principal controlar a Justiça. Com a votação da Câmara ele recebeu um alento. Renan e os deputados caminham para impedir que o Brasil se proteja dos assaltantes que o levaram à ruína.Renan tem influência. Há os que pensam, como ele, que é preciso torpedear a Lava Jato e há os que não ousavam combatê-lo, mas agora começam a perceber que foi longe demais. E o derrotaram no plenário do Senado, impedindo a urgência na lei da intimidação.Renan desenvolve o mesmo estilo de Eduardo Cunha, o cinismo, e usa o cargo para se proteger da polícia. Enfim, Renan delira, como Cunha delirava. A melhor saída é eles que se encontrem em Curitiba. Na ânsia de sobreviver, não hesitam em agravar a situação do País, já em crise profunda.A votação escondida num momento de luto, tudo isso é muito esclarecedor sobre a gravidade do desafio que lançaram. O sonho dourado dos políticos corruptos ainda em liberdade não é apenas deter as investigações. Eles querem reproduzir o momento anterior, em que assaltavam os cofres das estatais, vendiam artigos, emendas, frases, às vezes até um adjetivo.Romero Jucá é um craque nessa arte. Ele conseguiu passar uma lei que permite a repatriação do dinheiro de parentes de políticos. E não se expôs. Jogou apenas com a incompetência da oposição. Os membros da apodrecida cúpula do PMDB precisam ser julgados. Enquanto estiverem no poder, estarão tramando uma volta ao passado, porque é esse o território em que enriqueceram. Eles sabem que nada é tão fácil como antes, caso contrário Sérgio Cabral estaria em Paris aquecendo o bumbum em privadas polonesas.O problema no Brasil é julgar para gente com foro especial. O Supremo é um órgão atravancado por milhares de processos.Uma razão a mais para julgar os políticos investigados com urgência é que estão legislando em causa própria. Depois de tantas investigações, tanta gente na rua, é incrível que o Brasil continue sendo dirigido pelo mesmo grupo que o assaltou.É inegável que houve avanços, muito dinheiro foi restituído. Dirigentes do PT estão na cadeia, assim como alguns do principais empreiteiros do País. Entretanto, quem conseguiu escapar até agora organiza a resistência, prepara-se para o combate e só descansará quando puder de novo roubar em paz. Esta semana me lembrei do Glauber Rocha. Num de seus diálogos mais geniais, um personagem dizia: “Já não sei mais quem é o adversário”. Se a sociedade e a Justiça tiverem dúvidas sobre quem é, podem pagar caro por essa hesitação.O movimento inspirado por Calheiros e iniciado com êxito na Câmara é, no fundo, uma provocação irresponsável. O Congresso, recentemente, já foi invadido por gente indignada com a corrupção. Toda a luta pelo impeachment foi conduzida de uma forma pacífica. Todavia se torna mais difícil evitar a radicalização, uma vez que deputados e senadores já mal podiam andar pelas ruas antes mesmo de golpearem a Lava Jato.Será preciso muita habilidade e paciência para julgá-los e prendê-los. Se isso não for feito logo, o Brasil merecerá o nome que Ivan Lessa lhe dava nos seus textos bem-humorados: Bananão. Não nos deixam outro caminho senão lutar com todas as forças, como se tivéssemos sido invadidos por alienígenas de terno e gravata.Depois de nove anos, o primeiro inquérito em que Renan Calheiros é acusado finalmente entrou na pauta do Supremo para ser julgado. O silêncio dos ministros ao longo de todos esses anos contribuiu para que ele se sentisse impune. Se escolheram esta semana para absolvê-lo, então aí terão, ainda que involuntariamente, se tornado numa força auxiliar do crime político. Se condenado na primeira ação, Renan começará a arrumar as malas para Curitiba. Lá nasceram os demais inquéritos e lá já estão outros que deliram com riqueza e poder. Como Eduardo Cunha.
Assinar:
Postagens (Atom)

